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  • Foto do escritorJonas Silva

Pico Siririca - K2 Paranaense


Pico Siririca visto do Pico Cerro Verde

Caminhar pelas trilhas da Serra do Ibitiraquire é constante em nossos planos, mas, devido as condições impostas pela pandemia não estava em nossos projeto próximos. Contudo, conversando com amigos da capital, levantei a possibilidade de fazer alguns cumes com acesso pela Chácara da Bolinha. Esse é um acesso diferente, menos conhecido que aquele pelas Fazendas do Pico Paraná e Rio das Pedras. Pela Chácara temos acesso principal aos Pico Camapuã (1706 m), Pico Tucum (1733 m) e ao temível Pico Siririca (1760 m) - isso mesmo, com 'S', a grafia com 'C' é errada e tem tom insolente. Outra curiosidade é que o Pico Siririca é considerado por muitos a montanha mais difícil do Paraná, e realmente chegar nela exige muito empenho e dedicação, isso deu-lhe a alcunha K2 paranaense.

Partimos em uma terça-feira, véspera de feriado, com destino a Campina Grande, a previsão do tempo era promissora a partir da quinta e nós queríamos passar o resto da semana na serra. Passamos em Campo Largo buscar uma amiga que tinha o interesse de acompanhar-nos no trekking. Porém devido a alguns erros e acidentes ela acabou tendo de abortar no primeiro dia ainda. Dessa forma nós retornamos à base no mesmo dia que subimos o Camapuã, - contarei no próximo diário de montanhismo. Dormimos mais um dia no camping e na quinta-feira depois de deixar nossa amiga a salvo na rodoviária de Campina Grande retornamos para a base onde recomeça nossa jornada.


Dia Primeiro - Tempo instável

Chegamos na chácara às 08:40, como já tínhamos dormido ali nas duas noites anteriores, fomos direto parar a gorila, nosso carro, no local de 'estacionamento' e montar as mochilas. Ainda de manhã não tínhamos decidido se continuaríamos o projeto ou era melhor procurar alguma outra coisa para fazer, afinal o dia anterior que, subimos o Camapuã e descemos foi bem frustrante devido ao clima e a trilha muito zuada. Nessa vibe colocamos o equipo na gorila sem guardar nas cargueiras.

Assim que paramos e espalhamos as coisas na grama apareceram dois gansos. Eles começaram a nos circundar e ameaçar na tentativa de acertar uma bicada. Com a capa da cargueira eu tentava afastá-los enquanto a Bruna saltava a cada aproximada dos bichinhos. Foram alguns minutos de tensão até que a proprietária apareceu e espantou-os morro abaixo. Ela disse que nosso medo tinha razão, eles costumam 'bicar' as pessoas mesmo. Mas, não se preocupe, durante os dias de fluxo na chácara eles ficam fechados.

Organizamos toda a tralha: roupas de aquecimento, anorak, equipos de cozinha, barraca, fogareiro, comidas - ovos, farinha, óleo, sardinha, pão, salame, linguiça, arroz, biscoitos, frutas e muitas sementes. Depois de calçar o tênis e encher os cantis começamos a caminhada.

Os primeiros 400 m são uma mamata; chão firme, grama aparada, trilha larga. Passamos pelo portão onde uma placa indica a trilha com os últimos avisos de boas práticas na montanha, caminhamos perto de algumas pedras até que entramos na mata. De início, uma matinha delicada. Pequenas árvores de troncos finos e folhas bem distribuídas deixam a luz passar dando vida aos arbustos menores que margeiam o riacho de água límpida bailando entre as pedras. O mesmo riacho que cruzaremos umas tantas vezes depois.

Logo a frente a trilha começa a ficar um pouco mais difícil; aparecem pedras, que, vieram com as cabeças de água da montanha e se amontoam nas curvas do rio, e muitas raízes salientes. Cruzamos o riacho uma, duas, três vezes. Na segunda uma pequena queda forma uma piscina natural transparente forrada de pedregulhos. Na quarta, uma sequência de cruzos, descortinam uma bela cascata de fundo. Avançando a cascata o primeiro barranco. Em dias normais é apenas um barranco alto, mas depois da muita chuva do dia anterior é quase uma batalha transpô-lo; liso da argila.

Segunda árvore gigante

Ganhamos altura e logo chegamos a segunda grande árvore da trilha, um exemplar de mais de 40 m com um tronco de aproximadamente 4 m de diâmetro que deve estar ali a pelo menos 200 anos. Um pouco antes tem outra árvore gigante, porém menor, que, possui uma fenda onde cabe uma pessoa dentro do tronco.

Seguimos cruzando córregos e transpondo pedras por onde a água rugia. Nos locais que não havia pedra ou barranco, estava formado um banhado que atolava os pés. Com uma hora de trilha cruzamos a placa que bifurca as trilhas do Pico Camapuã, Tucum, Siririca e Pedra Branca.

Pegamos a esquerda sentido Camapuã. A partir daí o trem complica. A trilha passa a ser um banhado (tinha chovido muito no dia anterior) com milhares de raízes que, nem sempre são só problema, muitas vezes elas servem de apoio e agarras ao perdermos aderência e deslizarmos. Quase um quilômetro nessa situação até sair no primeiro grande obstáculo; quando deixamos a mata, agora frondosa de árvores gigantes, muito cipó e taquaras, saímos de frente para a rampa do Camapuã.

Parte da rampa do Camapuã

A rampa do Camapuã é um divisor natural da trilha. A primeira vista pode não parecer tanto, mas é só começar a subida para as coisas começarem a ficar complicadas. É um caminho de rocha exposto, lisa, com inclinação de mais ou menos 45º. Quem se arrisca por ela precisa subir 1 km nesse situação; com aderência ruim e sem cordas ou árvores de apoio - infelizmente muita gente usa a frágil vegetação para andar comprometendo o local. Acredito que a trilha nesse trecho foi mal pensada já que ela segue direto atacando a rocha. É comum ao escalaminhar montanhas usar as ranhuras da rocha e fazer zigue-zagues para diminuir o risco e também melhorar a condição da trilha. As pessoas vão sempre buscar amenizar o risco caminhando pela vegetação em uma situação que a trilha não ofereça aderência.

Demos uma pausa no início da rocha para recompor o fôlego e então começamos a subida. Mais 30 min para ganhar o topo do Pico Camapuã. Quando chegamos na pedra do cume o tempo estava fechado, nuvens densas cobriam toda a parte de trás da montanha, apenas a parte frontal com visual da Represa Capivari algumas vezes ficava a mostra. Esperamos ali por duas horas, só nós dois. Durante esse período tivemos a oportunidade de ver por alguns minutos os picos vizinhos do Itapiroca, Tucum, Pedra Branca brincando entre as nuvens.

Vista do Pico Camapuã, lado oeste

Alimentados seguimos pelo meio da densa névoa sentido Pico Tucum. Logo que começamos a descer, passamos pelo local onde tínhamos abandonado no dia anterior, logo estaríamos na parede. A descida foi fácil, diferente da rampa aqui o caminho é pela ranhura da rocha que, apesar de mais inclinado, é bem menos sofrido. De relance as nuvens deixaram à mostra o paredão oeste do Tucum, quase 100 m de parede. Uma pequena linha entre as rochas mostrava o caminho, o coração começou a pulsar mais forte.

Lá fomos nós. Um trepa pedras bastante exigente. Rochas grandes que cobram boa disposição física para subir com as cargueiras. Pequenas fendas que arriscam o tornozelo com potencial para provocar danos sérios em caso de queda. No primeiro terço da subida tem uma trilhazinha que dá numa fenda maior por onde corre água pura da fonte, foi uma ótima oportunidade de abastecer os cantis e garantir a noite.

Mais um trecho no trepa pedras e saímos no último pedaço da subida, 30 m de rocha exposta no estilo do Camapuã, no entanto essa é mais lisa ainda contando que é bem úmida. O final termina em vários 'carreiros de rato' entre as caratuvas. Os poucos metros entre essas plantinhas foram suficientes para encharcar a roupa com toda a água acumulada na suas minúsculas folhas.

Encontramos duas clareiras onde cabem umas 6 barracas, montamos a nossa, e de roupa seca deitamos para descansar alguns minutos; a visibilidade era zero devido a névoa. O que era para ser alguns minutos acabaram em duas horas quando uma conversa no acampamento me acordou. Abri a barraca e lá estavam o Sr. Assis e mais dois rapazes. Perguntei seus nomes e se iriam dormir por ali. Como o tempo não mudara, enquanto foram armar acampamento voltei a deitar.

A cada dez minutos eu abria a porta da barraca, era açoitado pelo vento carregado de umidade, e não via nada. Cada oportunidade era uma frustação. Já se iam 17:35 quando a Bruna saiu da barraca e me chamou para ver o pôr do Sol, eu ri. Não tinha como ver o Sol naquela neblina, mas, ela insistiu, e não é que estava certa. Do lado oposto a porta que eu abrira estava o oeste e nessa direção a camada de névoa era bem fina deixando á mostra a silhueta do Astro rei a marcar o contorno do Pico Camapuã. Avisei os vizinhos e fomos todos para o cume do Tucum ver o sunset.

Sol antes de ficar avermelhado, visto pelo lado da Bruna na barraca

Por longos minutos o horizonte pintou-se de vermelho e deu vida àquele cenário. Batemos um papo com a vizinhança, além do Sr. Assis, os outros dois eram estreantes na montanha, irmãos, um de Curitiba e outro do interior do estado como a gente.

Fomos ao livro de cume que, não estava lá. E então voltamos para a casa de nylon onde preparamos o jantar. Logo estávamos dormindo mais uma vez. Nessa noite acordei às 02:15 e saí para avistar no horizonte as luzes cintilantes da capital Curitiba e toda sua metrópole, além de algumas luzes nas montanhas vizinhas do Itapiroca, Camapuã e Caratuva. Como o frio era bem duro, não ficamos mais que 45 min do lado de fora.


Dia Segundo - Mudando os planos

Neste dia acordei às 05:00 e fiquei encantado com o que vi do lado de fora da barraca; o céu estava estrelado com nuvens escassas. Ainda escuro e frio, me recolhi novamente ansioso pelo amanhecer. E quando começou ficar claro lá fora que voltei a abrir a barraca as coisas já não eram tão animadoras: muitas nuvens cobriam o cume e a visibilidade estava complicada.

Cruzamos os dedos e esperamos mais alguns minutos, afinal o sol ainda não dera as caras. Às 06:25 saímos do saco de dormir e bem vestidos fomos para o lado de fora, para nossa surpresa as nuvens estavam dispersando. Em poucos minutos os tons de laranja do leste foram sendo substituídos por um dourado mais intenso até ficar reluzente, as nuvens se esconderam dentro dos vales e pudemos ver o contorno de todas as montanhas do Ibitiraquire. A nossa frente o imponente Pico Paraná causava arrepios.

Nascer do sol no Pico Tucum

Lentamente o sol foi subindo e as encostas começaram a ganhar vida, o cinzento da sombra assumiu uma mistura de verde e alaranjado com pinceladas brancas das nuvens. Uma pintura celestial. Os cerca de 15 minutos parece que duraram uma eternidade, até que o astro formou uma explosão de cores e foi lentamente sendo difundido pelas nuvens que ousavam emergir das montanhas.

Voltamos para a barraca preparar o café. Como soubemos que os irmãos da barraca ao lado estavam sem fogareiro, ofertamos-lhes um café coado para aquecer o frio, eles aceitaram e nos ofereceram sanduíches de crepioca e frango, realmente deliciosos. Aliás eles contaram que era a primeira noite deles na montanha e que tinham passado algum frio, mas estavam de queixo caído com a maravilha. Com certeza já estavam arquitetando a próxima.

Com calma secamos as coisas e guardamos tudo. Conversando bastante com os novos amigos, acabamos saindo já às 09:15. O tempo havia limpado e deixava à mostra as montanhas vizinhas, assim como o grande vale pelo qual deveríamos passar até o Itapiroca - até então nosso plano era ir ao Itapiroca e de lá fazer um ataque no dia seguinte ao PP.

No começo a trilha era leve, pelos campos de altitude, a única dificuldade eram os banhadinhos que atolavam. Nem um quilômetro e as coisas mudaram drasticamente. Saímos de frente para um penhasco imenso. A parede com quase 75º precisa ser transposta por uma desescalada arriscada, seguindo o caminho da água. São cerca de 200 m de descida. Em alguns pequenos pedaços há uma corda fixa que auxilia na empreitada, mas a maior parte precisa ser feita agarrando nas ranhuras da pedra. Imagine isso com as cargueiras de 17 kg. De manhã eu havia comentado que andava com uma corda de estepe e fazia cerca de 2 anos, desde a travessia Petrópolis x Teresópolis que não a usava. Cheguei a questionar se não era peso desnecessário. Mas veja como acontece, nessa parede usei a corda para descer a cargueira da Bruna e diminuir o risco para ela desescalar a parede. Agora vou continuar carregando minha corda.

Foi necessário quase uma hora para superar a parede do Tucum. Chegamos na mata novamente. A trilha imergia na vegetação fechada. Começaria então uma batalha para se livrar dos galhos que agarravam nas cargueiras o tempo todo. Para piorar as raízes são gigantes, todas expostas ou acamadas de material orgânico, criando locais perfeitos para uma lesão nos pés. Com dificuldade fomos ganhando terreno até chegarmos a um local de vegetação rasteira de onde pudemos ter uma noção real da parede que tínhamos descido. Como já se iam 11:00 sentamos em algumas pedras estrategicamente localizadas e fizemos uma pausa para recuperar o fôlego do esforço e também da visão do paredão.

Retomando a caminhada contornando dois outros morros. A trilha constantemente mergulha na vegetação emaranhada tornando o progresso lento e sofrido. Dezenas de metros depois imerge entre rochas por mais alguns metros até emergir novamente no 'inferno'. Chegamos na bifurcação que leva ao Pico Cerro Verde (1720 m) ao meio dia. Seguimos em frente com a intenção de subir o pico na volta, contudo, uma centena de metros à frente a trilha voltou a ficar terrível. Percebendo a dureza da caminhada, e como estávamos com um dia a menos no roteiro teríamos de fazer tudo correndo: chegaríamos ao Itapiroca bem tarde, um ataque ao PP seria correria no dia seguinte e retornar até a base no último dia, pela trilha que estávamos seria bastante apertado, muito diferente do propósito que cultivamos. Conversando tomamos a decisão de pernoitar no Cerro Verde.

Retornando na trilha em poucos minutos estávamos descansando na clareira e procurando o livro de cume no meio do capão de caratuvas, dá para entender o motivo que o local se chama Cerro Verde. Achamos o livro, tiramos bom tempo lendo os desabafos de quem tinha feito a terrível trilha, rachamos o bico com o relato de alguém que tinha escrito "... ele (algum companheiro) estava de bermuda e suas pernas parecem de quem tinha brigado com um galo".

Montamos a barraca na única clareira disponível. As nuvens iam e vinham deixando à mostra apenas partes dos cumes vizinhos. Já no meio da tarde as nuvens foram abrindo e pudemos contemplar o visual mais lindo de todo o Paraná. O maciço do PP incrivelmente emoldurado pelos cinturão verde, à sua esquerda os gigantes Itapiroca e Caratuva quase escondem outra montanha difícil, o Ferraria lá nos fundos e à direita os Siririca e Luar servindo de quadro para o complexo do Marumbi com sua nuvem de estimação e a Serra da Farinha Seca. Ficamos admirando aquele panorama, com a câmera montada fiz uma série de fotos, outros vários time-lapses, só queria ficar ali por muito tempo enamorando a maravilha do criador, no absoluto silêncio da natureza.

Nuvens brincando entre o Itapiroca e o Caratuva)

Uma hora depois as nuvens começaram bailar deixando a cena ainda mais interessante. A luz do sol no horizonte dava cores místicas à paisagem e as fotos cada vez ficavam mais encantadoras. A tarde ia chegando e como era sexta-feira começaram a ouvir-se gritos nos cumes ao redor, pessoas que chegavam para acampar e rugiam de alegria. Pouco antes de o sol se ir as nuvens tomaram conta escondendo mais uma vez o Cerro Verde.

Preparamos nosso jantar e de barriga cheia encolhemos dentro da barraca e dormimos uma noite mágica, sem vento, apenas a densa neblina umedecia o sobre teto da "Ofurô (barraca)".


Dia Terceiro - Montanha-russa infernal

Planejamos de começar a caminhar logo depois do amanhecer, mal sabíamos o que nos esperava na manhã seguinte.

Acordamos antes das 06:00, fizemos o desjejum e saímos da barraca. O tempo estava cristalino. Todas as montanhas estavam à vista e poucas nuvens preenchiam delicadamente os vales. Lentamente Apolo empurrou seu mensageiro, o Sol. Enquanto o leste transitava de tons róseos para alaranjados e depois dourados as duas camadas finas de nuvens davam um espetáculo: no vale entre o Cerro Verde e o Pico Paraná as nuvens iam da direita para a esquerda e alguns quilômetros acima do PP as nuvens seguiam no sentido esquerda x direita. A silhueta do gigante completava a obra.

Amanhecer no Cerro Verde, visual do Pico Paraná

Quando o Sol despontou os picos ficaram com as cores quentes enquanto no Cerro Verde a sombra dominava. Foram 10 min até que os primeiros raios se definissem na corcova formada pelo Pico Paraná e seu gêmeo Ibitirati. A luz foi preenchendo toda a serra, a cada segundo o cenário mudava. O êxtase era tal que nem percebemos a hora correr, quando dei conta eram 07:45. Corri desarmar a barraca e guardar a tralha para começar a caminhar às 08:20.

O atraso fora por um motivo digno, e então pensávamos em seguir pelo Pico Luar até a trilha do Siririca e a depender da hora fazer um ataque ou então tocar direto para a base. O dia prometia. Enxergávamos os campos rasteiros sobre as encostas do Luar, do Pico Lua, e outros menores; caminhar na vegetação baixa seria um prazer. No entanto foi só contornar o primeiro morro e sair da trilha que percorremos no dia anterior para perceber a enrascada.

Assim que a trilha se separou do sentido Tucum já mergulhamos numa vegetação arbustiva implacável. Andar cem metros era uma eternidade e exigia muito esforço para puxar a cargueira. Para piorar quando saímos nos campos a trilha virava um lodo, como passam poucas pessoas a trilha é por cima de folhas de bromélias e cama de capins, uma verdadeira batalha para se manter em pé e não torcer um tornozelo.

Não bastasse a dificuldade, mergulhamos no primeiro grotão pendurados nas rochas e nos arbustos. O tempo todo era necessário pular pedras gigantes, desviar de fendas nas quais uma queda pode ceifar a vida, pular troncos ou passar por baixo deles. A cada etapa, saíamos do campo, passávamos pelos arbustos, entrávamos no grotão saindo depois nos arbustos e novamente no campo. Foram 3 km nessa situação até que chegamos no Pico Luar. O tempo estava limpo e apesar de nesse cume não haver muita clareira, aproveitamos as rochas para fazer uma pausa e se alimentar, afinal já eram quase meio dia.

Perdida em meio a um dos grotões

Retomamos o caminho descendo e subindo encostas. Por fim pegamos um trecho longo em meio a mata. Muitos caminhos perdidos por onde passou gente algum dia. Com calma e paciência só erramos uma vez, mais à nossa frente dois rapazes que ultrapassaram-nos fazendo um ataque rápido às montanhas se perderam ao menos duas vezes. Nesse grotão a profundidade das fendas impressiona, o som da água correndo dezenas de metros abaixo da superfície dá uma dimensão do risco que é cair ali. Algumas vezes há pequenas áreas de areia e rochas que indicam pontos onde ocorrem cabeças de água. Alguns desses locais possuem vestígios de acampamento, mas não sabemos se são recentes ou podem ser de meses atrás.

Saindo desse grotão mais longo esperávamos logo encontrar uma bifurcação para a base, contudo, nada de encontrar o caminho melhor. Passamos a claramente subir, cada vez que saíamos de um buraco estávamos mais alto, meu sentido afirmava que tinha algo de errado com a navegação. Cada vez que descíamos os barrancos aproveitava para pegar água, num deles enchemos mais água que o de costume. Eu desconfiava que estávamos começando a subir o Siririca. Por algum descuido eu demorei muito para conferir o mapa e quando saímos na próxima clareira, o cume de um daqueles morros menores, conferi as coordenadas e as cotas confirmando minha intuição: já estávamos começando a ascensão do Siririca.

Observando o Pico Paraná do Siririca

Consciente do erro, conversamos e decidimos seguir em frente. A trilha tinha sinais de passagem apesar do nível de dificuldade devido aos trepa-pedras terem se tornado quase escaladas, a trilha estava até melhor que no início do dia. Logo que as descidas acabaram, os trechos onde não haviam pedras, era necessário meio que agarrar nos capins para superar os 60º de inclinação. Com muito esforço chegamos na cota de 1550 m ás 16:00. Saímos em uma trilha claramente mais usada. Mais uma vez paramos e conversamos: seguir com o plano inicial de voltar para a base seria complicado, com apenas mais duas horas de luz, sabendo da dificuldade que era a trilha; outra opção era dormir no Siririca e descer no dia seguinte, com essa última escolha apenas teríamos de controlar a água já que nossos cantis estavam pouco cheios. Escolhemos a segunda opção, afinal estávamos a 50 m abaixo do cume. Tocamos para cima e em 20 min passamos o último vara-mato antes das famosas placas da montanha.

Quando chegamos haviam duas barracas mal arranjadas no meio das touceiras, e quatro jovens dormiam roncando feito tratores, o cheiro de cachaça denunciava a imprudência. Passamos mais à frente, mas devido às rajadas de vento voltamos um pouco mais para perto no melhor local para dormir: chão reto, espaço grande e cercado de grandes arbustos que, formavam uma boa barreira para o vento.

Após montar a barraca e colocar os calçados para secar, fomos assistir o mais belo pôr do sol de toda a travessia, sem nuvens.

Com a noite e a temperatura caindo voltamos para a Ofurô. Nossos vizinhos deram sinal de vida. Dava para ouvir o turbilhão de bobagens que estavam falando, um deles precisava de ajuda até para ficar em pé. De alguma forma eles conseguiram organizar as barracas, só dava para ouvir falarem em "corotinho".

Passadas algumas horas ouvi chegarem mais pessoas, saí para ver as estrelas e pude perceber dezenas de focos de luz nos picos ao redor, inclusive no meio da mata nas partes baixas da Serra da Farinha Seca, pela quantidade não sei se são trilheiros, caçadores, ou ambos. Nunca imaginei ver tantas luzes naquela região. Em fim dormimos quentinhos, escondidos do vento e bem acomodados.


Dia Quarto - A Trilha Principal nada Fácil

Era dia de voltar para casa, recuperar a gorila e dirigir os 460 km até as terras centrais do estado, mas, era principalmente dia de comer um prato bem colorido em algum restaurante, coisa impraticável nos últimos dias. Nessa onda acordamos às 05:00, e ainda no escuro começamos a preparar o café, na verdade estávamos quase sem água e num lance de descuido derramei o pouco que tinha fervido dentro da barraca. Fiz a maior bagunça. Restou comer um ovo mexido com pão e biscoitos.

Guardamos a tralha e quando o leste começou a ficar rosado, mais uma vez, pegamos a trilha em direção ao cume do Siririca. O céu estava enrugado, nuvens densas muito altas davam um aspecto dramático a paisagem. A vegetação estava uma mistura de verde, violeta e azul, de certo modo intimidadora. Paramos no cume e esperamos o Sol despontar, no entanto apenas alguns raios cortaram as nuvens.

Nascer do Sol embaçado visto do Pico Siririca

Ao começar a descer a encosta, castigados pelo vento forte, pegamos a trilha da esquerda, diferente da que havíamos subido no dia anterior. A poucos metros dali encontramos as temidas paredes de rocha exposta do Siririca. A inclinação de mais de 75º é um desafio a ser superado com o uso de algumas cordas pré-fixadas. Como as cordas estão ali a algum tempo o ideal é usá-las apenas como equilíbrio e colocar toda a tração e aderência nas pernas evitando exigir demais das fibras. Com cuidado e perseverança todo obstáculo pode ser superado. Assim descemos os 4 piores lances antes de entrar na trilha mais segura.

A trilha seguiu por uma vegetação rasteira bastante lisa ainda. Aos poucos deixávamos o Siririca para trás e junto com ele o visual do PP. Antes das 08:00 entramos na mata. A trilha, muito melhor que do dia anterior, bem definida, larga - sem arbustos agarrando as cargueiras. Contudo a dificuldade não diminuiu, pois, o tempo todo a picada vai margeando os morros menores por encostas íngremes. A quantidade de raízes e troncos a serem transpostos é muito grande, com a cargueira fica tudo mais difícil. Para piorar o psicológico lá no almoço, ansioso, só complica.

As horas passavam rapidamente e cada vez que chegávamos nu fundo de um vale cortado por um córrego pensávamos ser o início da subida final, mas, aí chegávamos com muita luta no alto e começava a descer tudo de novo. Encontramos algumas pessoas na trilha, mas, com medo da resposta resistimos a perguntar se faltava muito. Caminhamos cinco horas nessa situação, passamos por inúmeros córregos de água cristalina e seus poços convidativos ou cachoeiras barulhentas. Escalamos várias vezes pedras e paredes que pareciam impossíveis. Caminhamos entre jardins de bromélias lindas e avistamos muitas aves coloridas e pequenas que cantavam como se animassem nossos passos.

A tão esperada bifurcação das trilhas

Por fim às 11:30 verifiquei o mapa e pude confirmar que definitivamente aquela era a última encosta a ser superada. Logo ouvimos vozes que identificamos ser de pessoas subindo a trilha do Camapuã, a mesma que subimos dias atrás (duas vezes). Quando avistamos a plaquinha da bifurcação das trilhas o coração pulsou aliviado. Lentamente passamos pelo grande banhado que se forma ali, e começamos a descida, agora totalmente relaxados.

Durante a descida final, como era domingo, encontramos dezenas de pessoas subindo, outras sentadas ao longo da trilha com cara de que tinham sucumbido. Foi curioso encontrar pessoas limpinhas, algumas com roupas brancas e tênis de passeio, enquanto nós estávamos estropiados; minha calça impermeável havia se dividido ao meio, a Bruna parecia que tinha dormido numa caverna.

Cruzamos o rio pelas últimas vezes e finalmente escapamos para o gramado de onde pudemos avistar a base, com o sentimento de dever cumprido cruzamos o portão e dirigimo-nos para a gorila. Guardamos a tralha, dessa vez os gansos não apareceram.

Finalmente fomos dar baixa no cadastro, tomar aquele banho e despedir dos atenciosos proprietários e guardiões daquela montanha.


Equipamentos

Fizeram companhia os seguintes equipamentos:

  1. Barraca Quechua, Quik Hiker 2;

  2. Dois Sacos de dormir Nautika Antartik (-7º);

  3. Cargueira Forclaz Trek 700, 70+10L;

  4. Cargueira Forclaz Trek 900, 50+10L;

  5. Bota Columbia Waterproof;

  6. Tênis Columbia Montrail;

  7. Corda de emergência 10 mm, 30 m;

  8. Dois Headlamp Naturehike Waterproof Led;

  9. Minifogareiro Nautika Júpter;

  10. Dois isolantes térmico Naturehike inflável;

  11. Roupas de trilha (calça, calça impermeável, anorak, fleece, segunda pele, gorro, luvas, meias;

  12. Panelas e demais acessórios;

  13. Alimentação personalizada de acordo com nossas experiências em trekking e acampamento, ex: ovos, salame, pão, café, sardinha, sementes, aveia, arroz, farinha etc.


Extras

No vídeo abaixo representamos a nossa empreitada.



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