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  • Foto do escritorJonas Silva

Travessia Ruy Braga - Parque Nacional de Itatiaia

Dia Primeiro

Eram 06:30 quando terminamos de colocar as tralhas nas cargueiras, e beber o último café dentro de uma 'casa' pelos próximos nove dias. Cada mochila pesava quase 20kg, estávamos levando provisões para todos os dias. Deixamos a chave na porta. Então caminhamos pelos cerca de 2,5 km de estrada que leva até o Complexo do Maromba, uma subida constante que, para o aquecimento do dia cobrava um preço. Afinal já era nosso terceiro dia dentro do Parque Nacional de Itatiaia (PNI).

Essa distância de 2,5 km é para quem já está no parque nas redondezas do Centro de Visitantes. Alguém que vai subir desde a portaria tem quase 10 km para chegar ao início da trilha. O percurso pode ser facilitado pegando um ônibus até o centro de visitantes, para tanto, é preciso levar em consideração que o primeiro dos três ônibus que chegam lá só sai da cidade às 07:00.

Com três quartos de hora estávamos no posto de controle ainda deserto, contudo, tínhamos conversado no dia anterior com o guarda-parque e ele autorizou-nos a subir a hora que desejássemos. Aproveitando que estávamos ali, e considerando que não conseguimos, até então, descer no Poço do Maromba, deixamos as mochilas na mesa de descanso e descemos. Uma grande lagoa de água cristalina formada pelo Rio Campo Belo, o mesmo que forma várias das quedas que visitamos no PNI. A água é tão límpida que tem tonalidade esverdeada e devido a correr entre as rochas é muito gelada. Nossa visita foi rápida e logo estávamos fazendo o último confere antes da subida.

Piscina e Cachoeira do Maromba

Às 07:25 cruzamos a cancela sentido parte alta. Logo nos primeiros 100 m tem uma bica de água que vem da montanha, aproveitamos para completar os cantis. Os primeiros sete quilômetros foram por uma estrada antiga, em condições precárias, contudo, ainda em uso. A estrada é usada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para facilitar o acesso as partes mais elevadas da trilha e também aos abrigos de montanha; Chalé Alpino e Abrigo Água Branca. Além de facilitar a manutenção da trilha pelos voluntários. Mas essa estrada já foi a principal via de acesso à parte alta antes da abertura e da ligação pela Garganta do Registro. Durante muitos anos era esse o trajeto percorrido por botânicos, ornitólogos, montanhistas e uma gama de pesquisadores que frequentavam a região.

Até o quilômetro sete os únicos obstáculos são a aclividade e pequenos trechos onde houve deslizamento de encostas. As próprias passagens de grotas e córregos têm pontes construídas. Se feita calma é uma caminha muito prazerosa, imersa na vegetação e acompanhadas de todos os tipos de aves que fazem seresta. A sofrida subida nos obrigou a fazer pausas a cada hora, em uma delas tivemos o prazer de mais uma vez encontrar macacos nas árvores.

Depois do quilômetro sete a trilha apresenta alguns obstáculos extras, como grandes árvores caídas forçando passagem por baixo ou por cima. Apareceram também algumas áreas de risco com desmoronamento, mas todas sinalizadas, afinal até o quilômetro dez a trilha recebe conservação pelas equipes do parque.

Quando chegamos na bifurcação do abrigo Água Branca, 10 km, escolhemos não ir até ele. A subida estava dura e desviar 3 km ida e volta, não parecia convidativo. Viramos à direita, agora por uma trilha bem menos ampla, com vários passos de água. Caminhamos por 20 min até que chegamos no Abrigo Macieiras.

Abrigo Macieiras

O velho casarão em ruínas da década de 1920, há muito serviu de abrigo e apoio aos pesquisadores e montanhistas. Infelizmente, hoje é apenas um rabisco na história, daquele que foi o primeiro do tipo no Brasil. Depois que caiu em desuso e passou a ser usado por montanhistas de conduta duvidosa (depredadores), deixou de ser o lar do Óreas.

Nós havíamos parado pouco tempo antes para descanso, e ainda marcava 11:00, então investimos alguns minutos observando a construção, sentindo aperto de ver a situação. Retomamos a marcha sentido Abrigo Massena. A trilha ponto passa a ser literalmente trilha. O caminho é por uma canaleta desgastada pelos passos ao longo dos anos, a subida passa a ser mais aguda exigindo ainda mais esforço.

Bruna, atrás Pico Cara de Leão

Às 12:15 a vegetação mudou pela segunda vez, agora as árvores frondosas e os bambus deram lugar a pequenos arbustos, alguns retorcidas, e muitas flores imersas em meio ao capim, grandes rochas também dominam a paisagem. A partir desse ponto o visual é de tirar o fôlego. A frente o maciço das Agulhas Negras é dominante, seguindo para a direita enxergamos os Picos Maromba, Cara de Leão, Gigante, Pedra do Ovo, e timidamente lá no final da Serra os Três Picos. A nossa retaguarda, lá no fundo do vale, as cidades de Itatiaia e Resende.

Depois de uma grande pausa para almoço e descanso, seguimos em frente descobrindo as montanhas, e depois de um grande contorno para a esquerda deparamos com o Maciço das Prateleiras e a Pedra Sentada. A trilha continua a subir levemente os últimos 200m até o Abrigo Massena. Entramos pela primeira vez em num platô. O capim rasteiro cedeu espaço a grandes touças de capim cortante, e o chão ficou encharcado. É preciso caminhar com mais atenção para não atolar os pés no charco.

Saltando as poças de água chegamos no Abrigo Massena às 14:10. Não éramos os primeiros, um grupo de aproximadamente 10 pessoas já tomava a sala do abrigo e tinha duas barracas gigantes do lado de fora. A bagunça que faziam dava a toada de como seria a tarde toda. Logo saíram para nos dar boas vindas e alguns 'conselhos' sobre onde montar a barraca.

Montamos a Ofurô e quando pensava em tirar um cochilo um dos vizinhos veio conversar, falou sobre as trilhas do PNI e contou que o grupo era formado em parte por iniciantes, e vieram somente dormir no abrigo. Foi só deitarmos que começou uma algazarra, era mulher berrando, homem reclamando: quem dorme dessa forma. Menos mal que durante a tarde não há problemas sério se não conseguimos tirar uma soneca, mas, e como seria a noite?

Às 15:20 saímos para buscar água na nascente uns 300 m em sentido Prateleiras. O pessoal do acampamento acabara de subir para outra casa em ruínas na colina, de lá dava para ouvir uma gritaria infernal, durante os 15 min que gastamos na água o barulho não melhorou em nada. E quando começamos a voltar ainda vimos mais um grupo chegando.

Com menos gente circulando, aproveitamos o espaço para conhecer a ruína do abrigo. O Abrigo Massena data da década de 1950, e seu nome é uma homenagem ao engenheiro que conquistou o Pico das Agulhas Negras. Era um abrigo gigante, o maior do país. Com vários cômodos, dentre os quais uma sala enorme com lareira. Hoje restam apenas paredes e restos do telhado. Mais um cenário triste do montanhismo nacional. Digamos de passagem que não é uma tragédia do montanhismo, mas uma catástrofe do estilo nacional em que as pessoas (nem todas) que se propõe a atividade não querem saber da atividade como um todo, o estilo, a filosofia, a ética. A maioria só se preocupa com o status, a foto, a conquista. Vejamos parte das pessoas que estão aqui acampadas, tem alguns que estão retirando madeira velha do telhado para queimar na lareira.

O pessoal da algazarra já estava voltando, o tempo havia fechado, então pegamos a pequena trilha na lateral do abrigo para a outra ruína. Encontramos o grupo na trilha, que, nos disse todo feliz que tinha rolado um pedido de casamento, o motivo da gritaria.

Chegamos na casa e por um alçapão no corredor, trepando em dois grampos fixos na parede acessamos o terraço. Daqui de cima o visual do Prateleiras e todos os Picos a redor é encantadora. A Serra Fina também se embaraça no horizonte, tanto quanto a Serra do Papagaio no sentido Minas.

Prateleiras à direita e Serra Fina mais ao fundo

Logo as nuvens começam a preencher o vale e dar novos cenários, tudo incrível. No céu, bem acima, outra camada de nuvens, mais densas e carregadas se formam, indicando a possibilidade de alguma chuva. Começamos o retorno ao abrigo, quando chegamos havia uma dezena de barracas, o falatório parecia festa infantil, cada um tenta falar mais alto que o outro. Minha cabeça que começara a doer um pouco antes agora soa como um tambor.

Foi o tempo de entrar na barraca e os primeiros pingos de chuva darem o tom. Foi uma correria só, das 10 barracas, 7 corriam para proteger da chuva acreditando que molharia a tralha. Não fico reparando o que cada um carrega, mas o corre-corre demonstrava equipamento inapropriado ou, nenhuma experiência do pessoal. Havia quem carregava as barracas inteiras para dentro do abrigo, outros puxavam uma lona pelo telhado e arrancavam vigas para colocar em outros lugares e sustentar a lona. Foi quase 30 min nessa farra, pensei que a chuva acabaria enquanto eles corriam. Com a água batendo no teto da barraca pegamos no sono e só acordamos 45 min mais tarde. Ainda havia barulho de madeira sendo arrancada. Com uma rápida espiada e ouvidos atentos descobri que estavam arrancando madeira para a lareira. Tá aí um dos motivos que as coisas não funcionam nesse país, atitude totalmente desnecessária.

Com a chuva cedendo preparamos uma refeição com café, linguiça defumada e pão. Com estômago cheio, nos recolhemos nos sacos de dormir. Ainda eram 19:00, ao menos a algazarra havia diminuído.


Dia Segundo

Às 06:00 olhei pela porta da barraca e vi um céu não muito agradável, nuvens densas e gigantes encobriam o sol. Voltei para dentro do conforto e esperei. Uma hora mais tarde quando voltei a olhar para fora encontrei o sol ainda embaçado, no entanto acima de nós as nuvens haviam dispersado deixando a mostra o azul infinito. Aos poucos as barracas da vizinhança começaram a dar sinal de vida.

Depois de beber o café, organizamos as tralhas e saímos para avistar as montanhas a partir da ruína do observatório lá no alto. Chegando lá, para nossa surpresa, o céu abrira e tanto o sol quanto as montanhas ao redor eram perfeitamente claros. Até mesmo a Serra Fina mostrava o verde mesclado ao amarelo da vegetação. Retornamos ao Massena recuperar as cargueiras e seguimos sentido Posto do Marcão: a portaria da parte alta.

Pegamos à direita do abrigo pela pequena várzea e logo depois de uma nascente de água encontramos uma bifurcação na trilha. Largamos as bolsas e caminhamos por 400 m no ramal até chegar na antiga estação meteorológica, hoje mais conhecida por Casa de Pedra. A ruína é encantadora, muito melhor localizada que o observatório. Suas paredes de pedras resistem ao tempo firmemente. Apenas o telhado e janelas não existem mais. E diga-se, que janelas; duas delas de frente para o Maciço das Prateleiras e Maciço das Agulhas Negras, ainda mais bela é a vista para a Serra Fina.

Visual de uma das janelas da Casa de Pedra para a Serra Fina

Retomando a trilha para a portaria. Contornamos um vale encharcado até entrar na parte alta por trás da Pedra Assentada. Assim que sai da pequena mata, o vale se apresenta magnífico. De um lado o Maciço das Prateleiras e seus parceiros, do outro o Agulhas Negras e todas as outras montanhas imponentes. No meio dessa confusão de rochas maciças o Rio Campo Belo desafia a natureza e vai lentamente desenhando seu curso entre uma queda e outra.

Nuvens começam a cobrir o Pico das Agulhas Negras

Caminhamos mais 2km contornando as Prateleiras e vendo aos poucos as nuvens densas e rápidas engolirem o Agulhas Negras. A trilha então passou a ser bem funda e regular até pouco depois da bifurcação que leva à Pedra da Tartaruga e Maçã quando volta a ser um estrada precária com muitas rochas e carrasqueira.

A 500m do Abrigo Rebouças no fundo do vale à direita da estrada pudemos ver a Cachoeira das Flores bagunçando as águas da lagoa cristalina na sua base. Continuamos até o abrigo onde deixamos as cargueiras e somente com a mochila de ataque e os equipos exigidos para a subida no Agulhas Negras e Prateleiras (cadeirinhas, corda, mosquetões) partimos para o Posto do Marcão registrar nossa chegada.

Depois do Abrigo a caminhada é por uma estrada bem conservada, o único incômodo foi o vento implacável e as nuvens que já haviam preenchido toda a parte alta do PNI. Uma vez cumprido os trâmites na portaria retornamos para o Rebouças e montamos nosso acampamento no camping de baixo, próximo ao Rio Campo Belo. Montamos tudo muito bem fixado pois ficaríamos acampados por cinco noites. Acreditando estar tudo certo, e depois do corriqueiro cochilo, caminhamos em meio ao nevoeiro para preparar o jantar na cozinha/quiosque do abrigo.

Com toda a calma do mundo preparei um café coado e fiz uma farofa perfeita, comemos e quando já caía a tarde retornamos para a barraca. Tive uma sensação de ter ouvido algum ruído diferente, mas, como várias tendas do exército se espalhavam nas redondezas não levei muito a sério. Quando chegamos na área de camping apontei o head-lamp na direção da barraca e ví alguns reflexos na grama. Não lembrava de ter deixado nada para fora, na hora lembrei que o porteiro avisara que no acampamento é comum receber a visita dos lobo-guarás e eles costumam carregar qualquer coisa.

Bastou uma varrida com a luz e percebi mais coisas espalhadas. Acelerei o passo e já pude ver o bicho passando atrás da barraca. Por um momento ele parou e ficou me fitando com um pacote de macarrão na boca. Não tive dúvida e corri atrás dele que se infiltrou no capinzal, fui alguns metros, percebi que seria inútil, pois, já tinha atolado o pé na lama. Começou então a saga de descobrir oque ele tinha carregado. Encontramos a minha cargueira fechada na entrada de um dos trilhos no capim, como eu tinha fechado todos clipes e zíperes ela não foi aberta, o lobo conseguiu apenas arrancar um dos puxadores. Já a cargueira da Bruna estava toda esparramada. As roupas ficaram pelo caminho e das comidas ele pegou um kit-kat, o precioso salame dos nossos próximos dias e o macarrão.

Visual de dentro da barraca pelos próximos dias

Aos poucos fomos reunindo as coisas e resolvemos então mudar a barraca para o camping mais perto do quiosque e das barracas militares, onde havia também mais uma barraca montada. Já com o escuro fizemos a transição. Além de mudar tudo, retiramos as comidas das bolsas e colocamos para dentro da Ofurô. Enquanto montamos o novo acampamento conhecemos os vizinhos, um grupo de amigos, em duas barracas, que ficariam no parque pelos próximos dois dias, e se ofereceram para guardar nossa comida dentro do carro durante os dias que ficassem ali. Montanhismo é isso mesmo, nem precisamos ser amigos e já se preocupamos com o bem estar de nossos parceiros.

Fomos dormir empolgados com a expectativa de ver o lobo-guará durante o dia e com a preocupação de ele voltar a atacar a comida, afinal nossa estadia era de uma seis dias e já havíamos perdido ao menos três refeições. Antes de cair no sono ainda chegaram mais dois montanhistas que iríamos conhecer no dia seguinte.

 

Este diário é o terceiro e quarto de uma sequência de dez dias acampados no Parque Nacional do Itatiaia na divisa entre os estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Os demais dias, parte baixa e parte alta são relatados nos diários antecedentes/subsequentes.

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