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  • Foto do escritorJonas Silva

Trekking do Campo dos Padres

Nossa aventura começa ao acaso, não que nunca planejássemos percorrer a Serra Geral Catarinense, mas não estava nos planos para 2020. No entanto, uma tal de pandemia resolveu estancar nosso planejamento, e aos 45 do segundo tempo conversando com um amigo de Tubarão resolvemos seguir para essa região.

De início achei que não conseguiria entrar nos paradigmáticos Campo dos Padres. O primeiro contato com o pessoal da região assustou, uma agência enviou um orçamento de rei, junto de uma ameaça; argumentava ser a única a ter acesso à região, de outra forma eu nem deveria tentar ir. Passado o susto, conversei novamente com meu amigo que me disse ser possível fazer sem agência sim. Então comecei a garimpar.

Encontrei relatos e contatos de montanhistas da região, que foram grandes parceiros e me conectaram aos donos da fazendas e dicas da região.

Fim de agosto lá fomos nós, eu e a Bruna embarcados na 'gorila' 600 km de casa. Como não consegui autorização com uma das propriedades (que fica em um ramal da travessia), e também não consegui mais companhia resolvemos inovar e fazer um circuito saindo do Cânion Espraiado indo até o Lageado e retornando ao ponto de partida.


Dia Primeiro - Entrando nas nuvens

Deixando o Cânion Espraiado pela trilha para a Montanha Infinita

Saímos no dia 29/08 às 08:00 da manhã, dia limpo, coisa linda. Os amarelos campos, embebidos em água. Já nos primeiros metros cruzamos cursos de água, uma água límpida e corrente, seria perfeita para beber se não fossem os animais que são criados no platô e defecam por tudo.

Depois de 20 min é hora de começar a inclemente subida para a Montanha Infinita. Por cerca de dois quilômetros caminhamos em meio a uma mata de araucária e vassouras, em partes a trilha é uma antiga estrada de tropas, em outros trechos vai em meio as touceiras e pedras. Uma subida pesada que durou cerca de 1 hora.

Lá de cima dava para avistar no horizonte os campos reluzentes a algumas milhas de distância. Se desenhavam contornos dourados ou escuros da vegetação seca castigada pelo frio do inverno ou queimada pelo fogo rasteiro que renova as pastagens.

À nossa guarda deixamos o Cânion Espraiado entalhado na rocha e a única estrada de conexão com a civilização, o município de Urubici a 20 km. Estávamos ansiosos e mal conseguíamos esperar, por caminhar naquelas banda sob um céu limpo e noite estrelada.

Os primeiros 6 km foram tranquilos, em meio a mata de araucárias, por uma trilha (estrada antiga abandonada), basicamente um declive. Nesse trecho a única dificuldade são as pedras soltas e os vários canais de água e lagos onde os búfalos (existem muitos na região) se refrescam.

Depois de descer no vale, contornando a colina pelo oeste, tomamos o sentido norte, paralelos ao cânion do Rio Canoas que rasga o vale, espumoso, rebentando entre as pedras, centenas de metros lá embaixo.

Avistamos duas cachoeiras distantes em meio a mata, até aí acreditamos que passaríamos nelas. Mais tarde os proprietários me contaram que algumas dessas provavelmente nunca ninguém foi.

Depois do km 6 a coisa complica, subidas longas com pedras soltas. Um descuido e o tornozelo já era. Em vários trechos a trilha some e se confunde com carreiros dos búfalos, fácil se perder e parar nos perais dos cânions. Em um dos passos de montanha, quando a janela da mata permitiu avistar o vale do outro lado vimos uma grande e macia massa branca entrar no vale cobrindo toda a vegetação. Mal sabíamos o problema que nos aguardava. Depois dos 10 km a trilha bifurca, à oeste para a Grande Cachoeira do Canoas e ao norte segue para a Casa Azul. Seguimos para a oeste.

A trilha some em meio ao banhado e as vassouras (vegetação baixa e de muitos galhos). Adentramos um trecho de mata com muitas araucárias. De repente, fomos surpreendidos por dois grandes cães de guarda. Paramos, imaginei que deveria haver algum humano por aquelas bandas, os animais não pareciam de caça para estar tão longe de casa. Minutos depois um pouco acima encontramos os proprietários das terras montados em cavalos. Nós tínhamos a autorização de passagem, então eles nos orientaram sobre algumas bifurcações e sobre as queimadas que encontraríamos nos campos. Também insistiram que passássemos no rancho para um café, contudo nossa caminhada estava mais lenta que o planejado e deixamos para conhecer o rancho em outra oportunidade.

O rancho é uma construção erguida pelos proprietários em meio aos campos de cima da serra com a finalidade de servir de apoio para os vaqueiros quando vêm aos campos fazer cuidado aos búfalos. Serve também de estada para montanhistas autorizados e tropeiros que vão aos campos relembrar os tempos do caminho das tropas.

A essa altura o tempo já fechara, e a viração tomava conta. Tivemos dificuldade para achar a cachoeira. Um incêndio recente fez a trilha desaparecer completamente. Só restaram os galhos emaranhados das vassouras e com a viração não dava para ver o horizonte. Na primeira investida fomos surpreendidos por um perau de uns 400 m, intransponível. Ouvindo a queda tentamos progredir pela borda, mas a mata se fechou deixando a situação arriscada.

De volta nas vassouras, chegamos a pensar em desistir da Grande Cachoeira do Rio Canoas, perseverantes resolvemos fazer mais uma investida. Poucos metros na nova trilha e uma janela do tempo se abriu, em uma parte mais baixa pudemos avistar a queda superior, menor, de uns 25 m.

Pequena janela na viração nos permitindo contemplar a queda menor no Rio Canoas

Tentamos achar a queda maior, mas a viração retornou e em algumas investidas nos demos com os perais novamente. Um pouco frustrados, no entanto, respeitando a natureza, qualquer erro poderia levar os dois a uma queda de centenas de metros e morte certa. Retornamos às cargueiras e contornando a encosta saíndo finalmente nos campos.

A caminhada ficou mais fácil. Até a casa azul, abandonada, é possível identificar a antiga estrada usada pelos padres para buscar mantimentos e, que hoje serve de caminho para o sal, e o suprimento mínimo dado aos búfalos.

O lugar é mágico, cercas de taipa acompanham a estrada, o Rio Canoas corre mansamente pelas pedras. A cabanha, galpão ao lado da casa azul, hoje é apenas testemunha do tempo, das nuvens que vêm e vão, com ventos uivantes que castigam suas paredes sem cuidado algum. No alto do morro, uma única araucária faz vigia ao cemitério que serve de morada aos sacerdotes que fugiram para os campos.

Vagarosamente a neblina vai tomando conta mais uma vez. Ficamos novamente às cegas. Sem opção, descemos para o Canoas e depois de cruzar suas águas gélidas duas vezes, em fim encontramos um pequeno espaço plano e seco onde montamos a barraca. Preparamos um café para afastar o frio intenso. Antes dei um mergulho na água glacial do rio, e depois de colocar a roupa seca e esquentar com a bebida nos recolhemos na 'ofurô'.


Dia Segundo - O implacável tempo

Começamos cedo, depois de tomar o café quente e desmontar a barraca encharcada, às 06:15 já estávamos ensopados. A névoa não arredou pé a noite toda, e persistia manhã adentro.

A trilha é uma confusão de caminhos marcados pelos búfalos. Em pequenos trechos ainda restam gramíneas não queimadas, mas nos demais apenas cinzas e as vassouras peladas. Pelos campos se espalham morros e colinas, que apesar da baixa variação de altimetria formam emaranhados de caminhos por entre os morros, onde correm pequenos regatos.

Confiantes tentamos seguir navegando por referências no terreno, já que as trilhas se misturavam. Logo percebi que não fora uma boa ideia, contornamos um morro, cruzamos outro e quando olhei novamente no mapa estávamos na direção oposta à que queríamos. Como não queria, monitorar a trilha a todo momento, parei para entender o que estava acontecendo. Olhando para um dos morros, referência lá na frente, percebi a origem do problema. As nuvens carregadas pelo vento percorrem as depressões e como os morros são muitos, hora um fica visível, segundos depois é outro que aparece.

Sem opção, passamos a conferir o mapa a cada 10 min, deu certo. Em uma hora chegamos a porteira que dá acesso à borda dos cânions. Sua imponência é assustadora, mesmo 100% encobertos na viração, suas frágeis arestas são ameaçadoras. Olhando pelas fendas na rocha a vista se perde, e os ventos roncam no fundo do vale. A cota no mapa marca uma depressão de mais de 500 m. Só de imaginar sentimos calafrios.

Caminhante parece insignificante perante a imensidão do Cânion.

Os campos da borda da Serra Geral são gramíneas amarelas, em muitos trechos atoladas na água. Água, aliás, é o elemento mais comum nesse local, além daquela contida na neblina, brotam nascentes para todos os lados. A mais de 1500 m de altitude são esses campos a nascente dos dois principais rios do estado.

Seguimos pelo vale da nascente do Canoas. Alguns quilômetros à frente, depois da nascente do Canoas, subimos uma colina e começamos contornar o Morro do Campo dos Padres. Pela primeira vez deparamo-nos com as turfas. Essa vegetação composta principalmente de matéria orgânica revestida de gramíneas, musgos e cipós. Ela trabalha como uma grande esponja absorvendo a umidade das chuvas e névoas e depois liberando-a lentamente para os leitos dos rios, no qual vai se precipitar de paredões formando as maravilhosas cachoeiras. Nesse ponto foram menos de um quilômetro de turfas, mas extremamente desafiador. Nossos pés afundavam até os joelhos, e se não nos movemos rápido talvez a turfa nos engolisse.

Após a turfa começamos uma longa descida pelo flanco esquerdo do morro no sentido do Rio Campo Novo que deveria cruzar lá embaixo. Foi quase uma hora de descida. Ao cruzar uma pequena cela na colina, avistamos do lado oposto outra cabanha, acreditamos ser uma usada pela agência que opera na região e, que nos tentou trapacear.

Chegamos no Rio Campo Novo margeando uma cerca de arame farpado que separava algumas reses dos búfalos. O rio forma nesse ponto a Cachoeira do Rio Campo Novo, uma bela queda de aproximadamente 20 m, com águas cristalinas. Fizemos uma pausa para descansar e comer alguma coisa.

Como já se iam as 10:30, nossa manhã fora sofrida, muito sobe e desce, as turfas, e o processo de olhar o mapa em intervalos muito curtos tinha comido boa parte da manhã. Conversamos e resolvemos abortar a ideia de ir até o platô conhecido como lajeado, a uns 6 km dali. Seríamos obrigados a dormir lá caso seguisse o plano inicial. Saímos com provisões para 3,5 dias. Nosso plano era percorrer 25 km no primeiro dia, depois ir até o Lajeado e retornar para dormir depois de descer o Morro Boa Vista e no último dia andar os 23 km de volta, cortando caminho pela casa azul. No entanto, no primeiro dia fizemos apenas 21 km e ainda estávamos nesse vale, fomos colocados em uma situação complicada. Resolvemos então deixar as cargueiras escondidas das vacas e seguir até o terceiro ponto mais alto do estado, a uns 3 km, e retornar para decidir onde dormir.

Cachoeira do Rio Campo Novo

Sem peso, apenas com a garrafa de água e um pacote de nozes cruzamos a cerca e o passo do rio. Uma estradinha de pedras soltas, onde só passam animais de montaria a muitos anos, sumia poucos metros depois em meio a viração. Caminhamos com dificuldade e muito cuidado evitando as pedras mais instáveis.

Um quilômetro depois convertemos à direita entrando em outra turfeira, essa foi mais curta, mas não foi mais fácil. Ela terminava pouco depois de entrar na mata nebular. Um dos estratos florestais mais enigmáticos que já vimos. Um emaranhado de arbustos retorcidos com milhares de folhas pequenas, todos não passando de dois metros de altura. Essa vegetação se desenvolveu para sobreviver ao ambiente que predomina. Suas muitas folhas absorvem água da viração, e seu tamanho pequeno melhora a transpiração e reduz a exposição a radiação solar que nessas alturas é maior.

O movimento da viração em meio aos arbustos transmite um ar de terror e misticismo ao mesmo tempo. Por vezes imaginei um mago ou um elfo saindo de trás de uma das moitas. No labirinto da mata nebular fomos ganhando terreno, e uma hora depois saímos no campo aberto mais uma vez.

A ansiedade por chegar ao cume do Morro do Bela Vista do Ghizoni não era amigável, dava impressão que o cume verdadeiro corria desesperado de nós. Subimos e subimos, molhados até a cueca, até atingirmos o pico ao meio-dia e meio. O clima só piorava, e do alto dos 1804 m do terceiro ponto culminante de Santa Catarina nada pudemos ver.

Retornamos sob as mesmas condições de visibilidade, a única diferença foi não precisar conferir o mapa tantas vezes, já sabíamos o caminho. De volta na cachoeira, recuperamos as cargueiras, preparamos o almoço e retomamos a marcha para o Morro da Boa Vista.

A volta até a bifurcação perto do Morro do Campo dos Padres foi mais tranquilo, já conhecíamos o traçado. No entanto, precisamos, mais uma vez, cruzar o temível campo das turfas. Chegamos ao flanco do Morro do Campos dos Padres e decidimos fazer um ataque, afinal seu cume estava ali pertinho. Deixamos as cargueiras e começamos a subir o morro, em minuto estávamos lá, felizes. Ledo engano. Quando olho no mapa alguma coisa não está certa. Confiro, reconfiro, calibro a bússola e custo acreditar, o morro está á frente, mas onde? Só vejo o branco da viração.

Descemos do outro lado e depois de uma nascente deparamo-nos com uma sombra aterradora. Envolvido pela viração só vemos o vulto do que deve ser o morro. Começamos a subir, a trilha que era tranquila vira um trepa grama, a inclinação passa dos 60º em muitos trechos, é preciso se agarrar ao gramado, ou os restos que o fogo não queimou. São 400 m para superar uma elevação de quase 300 m.

Ataque ao Morro do Campo dos Padres de 1790 m de altitude

Chegamos lá exaustos, e da mesma forma não vimos nada, nem o marco geodésico, se é que existe. Descemos com o tempo ainda mais fechado, agora a viração se transformara numa garoa e o vento acelerara muito.

Recuperamos as cargueira e partimos para o Boa Vista, pela carta de navegação, a única referência pois a visibilidade era zero, caminhamos por uma crista cerca de 1 h e 30 min. Molhados, com frio, a cargueira parece que tinha várias arrobas. Quando começamos a subir novamente o vento nos jogava contra o flanco do morro, era preciso fazer força para se manter em pé e conseguir avançar.

A coisa foi ficando cansativa, tensa. Ganhávamos um cume e logo descobríamos que era falso. Na minha cabeça já estávamos caminhando a muitas horas sem parar, preocupações com o local de dormir começaram a aparecer. Aquele vento de 70 km/h assustava, por todo lada havia charcos. Como montaríamos a barraca naquelas condições, será que faria muito frio a noite?

De qualquer forma seguimos em frente, e com muito luta vencemos a última passagem entre as rochas. O mapa marcava o cume, mas seria verdade? Procuramos por alguns minutos até encontrar o marco geodésico indicando que estávamos no local certo.

Descemos as cargueiras, e como já estava para escurecer tomamos a arriscada decisão de acampar ali mesmo. Não sabíamos como seria a condição da trilha para frente, se fosse igual os últimos quilômetros pouca diferença ia fazer de acampar ali ou para frente, e no cume ao menos havia uma área seca.

Montamos a 'ofurô' com dificuldade. Carreguei algumas enormes pedras que encontrei nas proximidades e amarrei a barraca, o vento dobrava as varetas e assobiava ao cortar a corda de sustentação do sobre teto. Nessa altura a visibilidade se reduzira a menos de cinco metros, se algum de nós saísse da barraca era preciso falar alto o tempo todo para não se perder.

Mal preparamos o café com pão e salame, depois tomamos mais um café para ajudar no aquecimento do corpo e caímos no sono pesado.


Dia Terceiro - Só o que falta é se perder.

Acampamento no cume do Morro Boa Vista, manhã do dia terceiro

Acordamos muito cedo, depois de de dez horas de sono. O vento havia cessado e agora soprava gentilmente. Quando abri a barraca o vento era a única coisa que melhorara. A viração implacável ainda estava lá, dez metros depois, não era possível avistar nada. Preparamos a comida no avanço da 'Ofurô', ao menos o assoalho estava seco. Depois da bebida quente levantamos acampamento.

Decidimos não voltar pela crista, desceríamos no sentido do Vale do Canoas cortando assim uns bons quilômetros. Seguimos pelo cume no sentido sul saindo em uma cela, depois subimos outro morro menor, e na sequência mais outro. Navegávamos pelas coordenadas, já que não há uma trilha definida ali.

Depois de 40 min caminhando chegamos no primeiro leito de água, precisamos contornar pela borda da matinha até achar um ponto onde pudéssemos descer os quase dez metros e sair do outro lado. Caminhamos então à esquerda.

Não demorou muito a encontrarmos a borda de outro cânion intransponível. A coisa tinha deixado de ser divertida, precisávamos percorrer 25 km neste dia e última coisa que queríamos era ficar contornando cânions às cegas. Lá fomos nós consultar o mapa a cada cinco minutos.

Com muito trabalho contornamos esse primeiro cânion, e do outro lado seguimos sua borda para fugir novamente das turfeiras. Quando paramos para descansar em uma grande rocha quase coberta de capim, uma rajada de vento revelou nas paredes do cânion três cascatas de dezenas de metros de altura. Já vinhamos suspeitando disso, mas o nevoeiro não deixava ver nada. Da mesma forma que abriu o visual da depressão, ele se fechou novamente, e nós retomamos a marcha.


Descemos e descemos até que nos vimos em um banhado. Com água para todos os lados, fomos forçados a caminhar de touça em touça para não atolar até os joelhos. Cruzando pequenos canais onde a água corria entre pedras. Cenário maravilhoso, não fosse tão assombroso. As águas nesse local são cristalinas, tanto, que onde se formam as piscinas do rio só percebemos a água pelas poucas algas que se movimentam com a corrente. Para compensar a dificuldade, no fundo desses vales a conversão térmica mantem a temperatura não muito baixa e nem sentimos o frio que fazia alguns quilômetros atrás.

Fizemos mais uma pausa quando finalmente chegamos ao leito do Rio Canoas, que ainda corre tímido e insípido contornando as rochas. Das margens do Canoas até a borda da Serra Geral foram apenas 25 min. Bastou subir uma encosta e caminhar um pouco sobre o platô. Estávamos novamente na trilha já conhecida. Continuamos sem ver os cânions abertos.

Rio Canoas ainda calmo de águas cristalinas

Começamos a afastar da borda da serra seguindo trilha dos índios, um ramal de acesso ao Campo dos Padres que percorre um antigo caminho de tropas subindo de Anitápolis. A trilha é mais bem demarcada e só vai se dividir próximo da casa azul.

Assim que deixamos a trilha dos índios um grupo de búfalos começou a vigiar de longe. Eles assumem um tom ameaçador, com o focinho levantado e as orelhas reclinadas. Aparentam atacar a qualquer momento. Fizemos um desvio à esquerda acompanhando uma velha cerca de arame. Só relaxamos depois de cruzar a mesma. Uma cerca naquela situação, mal atrasaria um humano, quem dirá um animal robusto de quase uma tonelada.

Ao aproximar da encosta onde os campos vão ficando para trás, ironicamente o tempo começou a abrir. Já pudemos ver ao longe a casa azul e a cabanha que estavam a mais de 300 m. Pela primeira vez nas últimas 48 h enxergávamos além dos 400 m² a nossa volta, isso foi libertador.

Casa azul, também é possível avistar as taipas no primeiro plano

Fizemos uma pausa na cabanha para descansar e comer alguma coisa. E aproveitamos para investigar mais de perto as cercas de taipa que estão ainda mais firmes com suas dezenas de anos. Boa parte delas já se incorporou ao meio, é comum os locais onde os arbustos, cipós e até árvores nasceram por entre as pedras, como se fossem naturais esses amontoados.

Como não vamos pela Grande Cachoeira do Rio Canoas, nossa trilha sobre o morro atrás da casa azul. Um ziguezague, em uma estrada de tropas diminui a inclinação. Em poucos metros podemos avistar parte do Campo dos Padres lá do alto. Logo a trilha começa a embrenhar na mata, vassouras, açoita-cavalo e bugreiros se dobram sobre a clareira daquilo que um dia já foi uma picada para a tropa. Aos poucos a mata vai se fechando e inúmeras trilhas desenhadas pelos búfalos se distribuem pelas encostas.

A certa altura, na tentativa de desviar um atoleiro com muita vassoura, nos afastamos do corte da estrada, em poucos minutos estávamos à beira de uma encosta agarrando-se aos xaxins para ficar em pé. Estávamos fora da trilha. Como tínhamos descido um bom trecho, a possibilidade de retornar não cabia. Quanto mais descíamos mais encrencados ficávamos, do outro lado do vale via a mata crescer novamente, debaixo dos nossos pés as pedras que rolavam sumiam mata abaixo e nada da tal trilha.

Nosso mapa cartográfico não marca a trilha, as cotas são de 50 m, além do mais o emaranhado de trilhas dos animais não esclarecem nada. Era preciso lidar com um componente a mais, o psicológico. Cansados, passava do meio dia, meio perdidos, caminhando lentamente numa encosta perigosíssima, a 14 km do objetivo e para piorar a Bruna tinha uma bolha no calcanhar; dava para ver nos olhos a dor que sentia.

Melindrosamente fomos caminhando na diagonal sem descer mais, tentando ganhar terreno. E um ponto passamos sobre um deslizamento de terra recente, eram toneladas de rocha e terra que havia varrido araucárias centenárias morro abaixo. Às 12:50, pelas frestas das árvores, pude ver lá embaixo no canto do morro do outro lado uma abertura simétrica e pouco a frente o Cânion do Rio Canoas. Estávamos no caminho certo, só que muito lentos. De algum modo precisava ganhar terreno. Agora tínhamos uma referência geográfica passamos a usar os trilhos do gado a nosso favor. Algumas centenas de metros depois achamos a estrada novamente, e confirmamos que a trilha usada pela agência vai cruzando a estrada de lado a lado, pois em muitos trechos não tem como seguir o corte original devido a árvores caídas, deslizamentos e erosões, que bloqueiam a estrada.

Na trilha encontramos algumas arvorezinhas cortadas a facão, no entanto, no local do perdido também encontramos essas marcações. Quando paramos para comer, lembrei do proprietário dos terrenos contara que na semana anterior vários peões correram as encostas para vacinar e marcar os búfalos. As sinalizações foram feitas por eles, a pressa e o cansaço me levaram a não perceber esse detalhe e seguir marcas que levariam cada vez mais para dentro da mata. Alimentados, depois de fazermos o curativo na bolha da Bruna, retomamos a descida. Só chegamos no ponto de bifurcação, que já passamos no primeiro dia, às 14:00.

Começa então novamente a batalha pela carrasqueira; sobe morro, desce colina, contorna encosta, desce, sobe, contorna. Para judiar, a viração deu lugar a um sol inclemente, só ficamos a salvo quando as araucárias interviam a nosso favor. Infelizmente estamos no flanco da serra e grande parte das árvores está abaixo de nós.

A mata de araucária é uma das mais bonitas que já vimos, são milhares de árvores, cada um com dezenas de metros que preenchem todas as encostas. A todo momento cruzamos regatos e quando nos aproximamos do cânion podemos ouvir lá no fundo a fúria das corredeiras. Passamos novamente pelo ponto onde enxergamos as cachoeiras, dessa vez ergui o drone que fora quase inútil nos campos em meio a neblina.

Saímos finalmente na estrada da Montanha Infinita já com a última luz do dia. Exaustos nem pensamos duas vezes e seguimos por ela. Não havia mais disposição de caminhar na mata para descer a Montanha Infinita pela trilha.

Mal andamos na estrada começou um vento forte mais uma vez, e junto veio a viração. Logo se tornou uma garoa. Nossos últimos dois quilômetros foram tão judiados quanto nosso dia anterior subindo o Morro Boa Vista.


Eram 19:00 quando avistamos novamente a 'gorila' parada ao lado do celeiro esperando seus donos. Fomos recebidos com muito carinho pela proprietária que nos ofereceu o celeiro para montar a 'Ofurô', nem fizemos manha e fomos logo estender as coisas para secar. Após o banho, aquecidos, batemos um bom papo com a proprietária e fomos dormir, processar tudo aquilo que passamos.

Pode parecer uma aventura frustrada, mas nunca será. Estávamos lá pela experiência, e com certeza não planejaríamos ir para os campos se soubéssemos com certeza do que nos esperaria. A previsibilidade, ou a busca por ela, acaba tolhendo oportunidades e experiências únicas.


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