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  • Foto do escritorJonas Silva

Travessia da Maior Praia do Mundo

Atualizado: 8 de abr. de 2021

Esse projeto foi um dos motivos que me colocaram nas travessias. A primeira vez que ouvi sobre a Travessia do Cassino, era 2014.

Ao cruzar a Serra do Purunã fiquei olhando para a elevação que divide as faixas da BR 376, imaginando como seria uma travessia naqueles costões íngremes de cumes rasteiros. O velho espírito mameluco cultivado na minha terra veio a tona. Fui para a internet procurar alguma informação, e nada. Porém acabei lendo um relato sobre a maior praia do mundo e a Travessia do Cassino. O que me chamou a atenção nela foi a dimensão do desafio pessoal. Como havia passado recentemente por uma reprogramação psicológica e um autoconhecimento muito intenso, fiquei fantasiando a experiência que seria caminhar por um lugar monótono por tanto tempo. Naquela época, eu reconhecia não ter condições físicas e muito menos experiências com travessias nesse estilo.

Pôr do sol no Farol Albardão, horas antes de uma chuva torrencial

Quase 7 anos mais tarde, em fevereiro de 2021, tempos de pandemia, nos colocamos na estrada. Foram 26 horas dentro do ônibus até a cidade base, Rio Grande/RS. A lotação praticamente vazia, nem 15 pessoas, e uma série de protocolos para evitar ao máximo qualquer contaminação. Depois de todo esse trajeto ficaríamos sós, isolados, quase uma quarentena.


Muito Vento, Areia Movediça e Mar Agitado

Ficamos meio período na cidade de Rio Grande conhecendo a história local e sua rica arquitetura. Ao meio dia pegamos o circular que vai até a Barra. Descemos no último ponto antes do retorno debaixo de chuva. Enquanto encapávamos a cargueira e vestíamos a capa de chuva; o primeiro banho que, só não foi maior porque fugimos para uma varanda ali do lado. O proprietário apareceu. Conversamos um pouco, o homem ficou admirado de nossa determinação e desejou-nos boa sorte.

Seguimos firmes pelo asfalto até o molhes. Ainda no trecho pavimentado encontramos um bugie, com um homem desesperado: pedindo ajuda. Seu filho, um amigo e o tio haviam seguido pelo molhes mar adentro. O mar enfurecera e subiu rapidamente, obrigando-o a fugir com o veículo, mas os outros nem sinal. O molhes já estava praticamente tomado de água. O mar quebrava com força, e as ondas cobriam o intrépido molhes. Orientei-o a correr na Barra e chamar o bombeiro ou qualquer resgate (nesse momento eu não havia visto a situação do mar ainda). Quando chegamos no molhes: padre mio... a coisa tá feia.

Olhei para trás e lá vinha o homem. Não tinha ido atrás do bombeiro ainda. Quando eu ia fazer a ligação um casal saiu do trailer, ao lado, e gritou: - Lá, estou vendo alguém - então guardei o telefone aliviado. Os três vinham com dificuldades entre as rochas. O pai desabou em prantos, e xingamentos. Horas mais tarde entendi: ele não ligara para o socorro temendo a notícia horrível que receberia. No final todos ficaram bem.

Para nós, vida que segue. Primeiro não conseguimos chegar no molhes. O mar tinha tomado toda a praia. Desviamos pela direita, por onde seguimos com dificuldades contra o vento e sobre as dunas. Para ter uma ideia os banheiros químicos que ficam na praia estavam todos tombados. Toda essa situação se devia a um ciclone que estava sobre o oceano naqueles dias.

Molhes do Cassino aos fundos coberto pelas ondas e banheiros químicos tombados
Molhes do Cassino aos fundos coberto pelas ondas e banheiros químicos tombados

Caminhamos os 8 km até o Balneário Cassino. Durante todo o trajeto tracei vários planos alternativos na cabeça. Se a tempestade não passasse teríamos de esperar alguns dias, e em último caso desistir.

Conseguimos um quarto no Hostel 40 onde passamos a noite. Ventou muito. Nós, ainda saímos, antes da noite no mercadinho comprar algum mantimento faltante e uma pomada para prevenir assaduras - era a primeira vez que eu estava recorrendo a esse artifício. Passei a noite monitorando o ciclone e os ventos pelo wheater. De madrugada os ventos começariam a se afastar e no sábado estaria tudo calmo. Seguido de 4 dias calmos e depois o vento chegaria com força novamente.

Acordamos cedo, o vento ainda soprava forte, mas o céu já dava sinais de melhora. Partimos enquanto o sol emergia no horizonte vazando entre os cumulus. Na praia o mar tinha recuado um pouco, apesar do vento sul soprar uns 30 km/h. Logo na primeira hora, depois de um chuvisco, pintou-se um arco-íris sobre o parque eólico ali na frente. Entendemos ser um sinal positivo dos deuses.

Seguimos firmes, e 3 horas depois o parque eólico ainda estava às vistas. A caminhada tinha se tornado uma batalha, o minuano (vento gaúcho) soprava impiedosamente agora a mais de 50 km/h, as ondas engoliam a praia e nos empurravam para as dunas. Os poucos trechos que não eram dunas tornaram-se bancos de areia movediça que tragavam nossos calçados e energia.

Chegamos ao naufrágio mais famoso daquelas bandas, o Navio Altair, contudo só o avistamos de longe. As ondas envolviam a carcaça, e o remanescente mastro golpeado por Poseidon parecia exortar-nos dali. Mais alguns quilômetros e avistamos as ruínas do Hotel Netuno. Desviamos para lá, o único lugar abrigado para almoçar e dar um tempo.

Ruínas do Hotel Netuno o único local abrigado do vento

Voltamos a marcha, agora totalmente pelas dunas. A praia estava totalmente alagada. Não demorou muito até que a Bruna fosse engolida até a cintura na areia movediça. Depois dos primeiros segundos, a cada esforço a situação ficava mais complicada, então ela deita na areia, o aumento da área de contato permitiu que eu tivesse tempo de arrastá-la pelos braços até a duna. Um misto de apreensão, medo e comicidade tomou conta dos dois, uma pessoa sozinha ou despreparada não sairia sem danos. Macabro também foi a quantidade de animais mortos que encontramos a partir de então: 8 tartarugas, 1 beluga (baleia branca), 1 leão marinho e várias toninhas. Essas carcaças traziam a mente a lembrança de que a natureza nessas areias costuma castigar.

Eram 15:00 quando resolvemos encerrar o dia depois de avistar alguns pinus em meio ao parque eólico. Apesar dos ventos fortes a mata forma algumas dunas altas, nelas a esperança de encontrar uma depressão protegida. Não foi difícil encontrar um lugar para dormir, mais fácil ainda foi pegar no sono.

Muita coisa me ocorria, sem atualizações do tempo não tinha como saber se o tempo se confirmaria ou já tinha mudado, o vento deveria ter diminuído e não aconteceu. Ademais os ciclones na região costumam causar transtornos consideráveis, e cada dia caminhado seria, um dia mais distante de qualquer tipo de socorro. Dormi com a cabeça cheia de dúvidas.


O Desafio Psicológico, e o Hermitão

Logo que amanheceu percebi que o vento reduzira e as nuvens dispersaram. Começamos, logo, ansiosos por descobrir o que o mar reservara. Com a praia larga a caminhada fluiu bem. As carcaças se amontoavam na borda das dunas, o cheiro da putrefação era companheiro fiel. Avistamos, depois de 5 km andados, o Farol Sarita pequeno no horizonte. Esse acabou sendo um desafio psicológico enorme. Combinamos uma pausa no farol, caminhamos 8 km e o objeto não mudou nada, resolvemos parar nele para o almoço. Às 11:50 mudamos novamente, não dava para caminhar até lá sem comer. Nesse momento fomos alcançados por um grupo de moto-trilhas de Pelotas, iriam acampar próximo do Farol Verga, e convidaram-nos a parar lá no dia seguinte.

Um pouco à frente, surge da areia um sujeito, todo esfarrapado, com uma faca, e três cães. Eu já havia lido sobre pessoas que se escondem da civilização ali na região, geralmente fogem do contato com outras pessoas. Até então achei a conversa uma balela, mas um deles estava ali, só que não correu. Depois de passar por ele, desconfiado resolvi arriscar um contato. Me aproximei do homem que cravara o punhal numa madeira onde sentou e ficou a fitar-me. Cumprimentei-o, nem se mexeu. Meio confuso, fiz um comentário sobre os cães, para minha surpresa ele proferiu alguma coisa muito enrolada, talvez um idioma que nunca ouvi, ou um português a muitos anos não proferido. Sorrateiramente acenei um tchau, ele pelo gesto me desejou boa viagem. Receoso, fui afastando devagar até que dei as costa e fui embora. O homem levantou pegou a faca e sumiu nas dunas.

Farol Sarita todo circulado por água

Passada a situação, sentamos no meio da areia para almoçar. Nesse momento percebemos que não seria boa ideia comer alguma coisa elaborada, atacamos o pão e o salame sem dó. Retomando o passo o mar voltou a cobrir a praia. A caminhada penosa pelas dunas tornava o farol ainda mais inatingível. Fizemos mais duas pausas antes de chegar no Sarita, eram 15:00, havíamos caminhado 30 km, 25 km depois de avistá-lo.

O dia desafiador ainda não terminara, recolocamos as cargueiras e fomos buscar abrigo na mata de pinus, agora bem maior. 300 m duna adentro avisto uma lona no mato e alguns panos pendurados, pensei em ir até lá. Lembrei do acontecido mais cedo, e entre as touças no brejo vi mais um homem todos esfarrapado. Mudamos de ideia e seguimos para o pinus. Mal sabíamos que entre a praia e a mata tem um brejo de uns 250 m. Preferimos não arriscar ser atacado por alguma cobra ou atolar na areia, e contornamos o banhado até encontrar uma árvore frondosa na areia. Meio desconfiados, montamos a barraca dentro dos galhos e depois de se lavar no brejo, só acordamos no dia seguinte.

Barraca escondida no meio dos galhos

Começamos cedinho na esperança de fugir das dunas no período da tarde. O dia estava lindo, céu azul, vento leve, areia fina, mar calmo. A monotonia só era quebrada quando passavam dois ou três de veículos juntos fazendo a travessia, apenas acenavam e seguiam. Também um grupo de ciclistas nos encontrou, faziam o sentido oposto em 2 dias. E depois de alguma foto e curiosidades, gentilmente abasteceram nossa garrafa de água vazia antes de deixarmo-los para trás. Outras vezes eram as carcaças que surpreendiam, logo cedo uma jubarte, depois um e outro naufrágios.

Após nossa pausa para almoço passaram grupos de motociclistas, esses quase sempre paravam. Apesar da sensação boa de conversar com alguém diferente depois de 50 h, quando íamos retomar a marcha dava ódio. Os pés doíam até aquecer novamente. A galera de Pelotas não demorou a dar às caras. Nos disseram que tinham feito um churrasco e esperado por nós, mas com as horas passando desistiram de esperar e estavam indo embora já.

No fim o seu Zeca, o líder - após contar que andava por aquelas bandas há 30 anos, de cavalo, bicicleta, a pé e moto -, falou que seria um bom lugar para acampar. Começamos a perceber que uma caminhonete ia e vinha pela praia, só não entendi o motivo. Como o mar tinha acalmado e a praia estava larga aproveitamos. Debaixo do sol forte, às 14:00 a caminhoneta parou e um simpático senhor, (Vornei), nos ofereceu um suco de limão bastante doce, oh glória. Pensa num trem bom. Com o açúcar nas veias investimos até as 15:20 quando atingimos os 100 km. Bem em frente à entrada que o seu Zeca indicara. Satisfeitos com o ritmo, seguimos os rastos das motos, mas acampamos assim que entramos nos pinus sem chegar ao acampamento abandonado deles.


Tempestade e Corredeiras

O quinto dia foi o que começamos mais cedo. De volta na praia, que nem se parecia com aquela do começo, o sol agora reluzia nas esparsas nuvens restantes. Poucos quilômetros e o Farol Verga se avistara no horizonte, vacinados da experiência com o Sarita, preferimos nem falar um com o outro do que víamos. Seguíamos mais olhando para o chão que para frente, e numa dessas espiadas tive a impressão de avistar uma pessoa caminhando. Mais a frente o vulto parecia um cavalo. Já tive experiência bizarras em travessias pelo litoral, assim como tive também surpresas. Continuei firme custando acreditar que veria alguém.

Ao aproximar foi ficando claro que se tratava de uma pessoa caminhando moribunda, quase numa posição quadrúpede. A figura se afastou para as dunas, tratava-se de um senhor, descalço, todo esfarrapado caminhando com uma das mãos no joelho. Pensei em ignorá-lo lembrando da experiência anterior, mas alguma coisa em mim fez ir atrás dele. O homem parou desconfiado e colocou a outra mão por dentro das calças, gelei. Quem tá sujo não pode ter medo de molhar-se, cheguei mais perto e cumprimentei-o. Para a minha surpresa ele respondeu claramente e não tirou nada do coldre. Se chamava Paulo, o rosto era muito parecido com as imagens do monge João Maria. Ofereci meu tênis reserva, ele recusou. Ofereci comida, meio irritado ele disse que tinha, e só queria saber se faltava muito para o Farol Sarita. Não quis desanimá-lo e falei que dependeria do ritmo dele mas só chegaria lá no final do dia. Por fim ofereci água que aceitou rapidamente. Coloquei a garrafa nas mão dele e falei que se precisasse de ajuda deveria entrar nos pinus que tinha um monitor da fazenda andando por lá - nesse caso o senhor que nos dera o suco no dia anterior. A esta altura já estávamos no Farol Verga que, por ser pequeno não foi tão sofrido alcançá-lo depois de avistá-lo.

Logo que deixamos o farol para trás desponta no horizonte um veículo gigante, a distorção causada pelo calor fez lembrar Mad Max. Saiu na areia e rumou para o sul sumindo na faixa desértica. Uma hora mais tarde ressurge o gigante. Era um veículo articulado enorme carregado de toras. A todo vapor na areia, passou, buzinou e sumiu novamente.

Neste dia encontramos sombra para o almoço, era uma casa-carreta largada na praia. Sentamos embaixo dela, e logo o dono apareceu. Curiosamente ele tinha o mesmo nome do senhor dos sucos (Vornei). Conversando, explicou-nos que têm frentes de trabalho que ficam acampadas na floresta de pinus (chegam a 150 trabalhadores). Ele estava com a carreta-casa esperando um ônibus trazer o pessoal de Rio Grande e Pelotas. Quando falei do seu Paulo, disse que já havia visto o mesmo homem andando de bicicleta na areia. De certa forma me senti aliviado por saber que ele se virava por aquelas bandas.

Jubarte em decomposição, mais alta que uma pessoa

Assim que deixamos o Vornei II para trás, cruzamos por outra jubarte. esta ainda possuía partes dos couros e gordura, além do formato do corpo bem identificável. Como era a primeira vez que víamos o animal de perto, ficamos estarrecidos com o tamanho; apesar de uma parte ter sido coberta pela areia ela ainda era mais alta que qualquer um dos dois ali. Logo adiante ouço um barulho de veículo, não dou muita bola, o sol forte e a monotonia da areia causam visões equivocadas facilmente. Como o barulho aumenta, ao olharmos para trás o ônibus está manobrando a cerca de 200 m de nós. Em seguida ele para e uma multidão desce nas areias, logo eles iriam desaparecer no reflorestamento e só sairiam 15 dias depois - como havia relatado o Sr Vornei II.

Às 14:00 o reflorestamento que nos acompanhara por três dias acabou. Então avistamos o Farol Albardão no meio das dunas. Consultei o mapa e vendo que faltavam 13 km talvez chegássemos nele ainda, e chegamos. A partir de então nuvens começaram a subir em todos os lados, não demorou e o chuvisqueiro castigava nossos rostos. Sem desistir chegamos no Albardão às 16:30 depois de 40 km percorridos.

Já não esperávamos dormir dentro do farol devido a pandemia. Montamos acampamento do lado de fora do pátio. Para prevenir do vento, fiz algumas âncoras com sacos cheios de areia que enterrei e amarrei a barraca neles. O pôr do sol encerrou nosso dia em grande estilo. Fomos dormir com o vento soprando forte, mas a amarração deu conta de manter a casa de nylon no lugar.

Na madrugada vieram muitos trovões, vento e caiu o mundo. O dia amanheceu e a chuva ainda castigava. Meu maior medo não era se molhar, e sim os raios, mil histórias trágicas com mau tempo me ocorriam. Conversamos sobre fazer um dia de descanso. No entanto, às 07:15 as nuvens começaram a ceder, fizemos um desjejum e partimos, já 08:10. A chuva sumiu, deixando as dunas todas alagadas. Assim que começamos a caminhar aparecer os problemas. Os passos de água que, até então raramente eram fundos, agora pareciam rios de desgelo com corredeira bufantes. E para piorar se multiplicaram, cruzamos em média 5 passos por km nesse dia.

Durante toda a manhã uma infinidade de caravelas azuis salpicavam a areia, assim como raízes e galhos carregados pelas enxurradas da dunas. Um dia tenso, muitos passos de água exigindo atenção e cuidado, sol escaldante, chão irregular com muitas conchas, para complicar a paisagem monótona raramente exibia um rancho de madeira aparentemente abandonado no meio das dunas e quase sempre cercado de vacas. O ponto positivo era que com a chuva as dunas filtravam a água doce que nem parecia aquela amarelada que tomamos nos dias anteriores.

Atingimos os 30 km às 17:00. Parecia programação, nessa mesma hora avistamos um pedaço de mata, onde nos esconderíamos à noite. Com 150 km completos, acompanhamos o segundo pôr do sol nas dunas. Tomamos banho fresco na água da chuva acumulada e dormimos em meio a algazarras de periquitos que aninham nas árvores ali. Para um dia que pareceu perdido na madrugada, terminamos muito bem.


Nivelando a Praia e Concluindo o Projeto

Sabendo que seria um dia longo, faltavam mais de 40 km para chegar no Balneário Hermenegildo onde teria camping. Largamos às 06:40. O mar recuara muito, as enxurradas tinham formado muitos canais, agora secos. O chão irregular foi penitente durante toda a manhã. Quando ficava mais plano, as conchas tornavam os passos mais pesados e dolorosos.

Trecho com muitas conchas na paria e irregular próximo das ondas

Nesse trecho muitas vacas vigiam a praia. O número de ranchos nas dunas também cresceu. Contudo, humanos só lá pelas 09:00 quando encontramos um negócio motorizado, feito em madeira, puxando uma carretinha cheia de entulho, com rodas largas que parecia um rolo compressor, apinhado de gente. Também avistamos mais dois naufrágios quase submersos na areia e no mar, além de um hotel destruído e um leão marinho começando a decomposição.

Na hora do almoço, tínhamos atingido os 200 km. Então se chegamos à sombra de um rancho na areia, já fora das dunas. Descansamos, aliviamos os pés e retomamos a marcha. O número de veículos cresceu exponencialmente, muitos deles com pessoas que estavam pescando da areia. A praia agora alternava trechos irregulares terríveis e outros menos. Os pés doíam até na alma. O alento é que já enxergávamos o Hermenegildo.

Com muito luta vencemos os 45 km até o Camping Pachuca. Assim que entramos, o dono (incrivelmente tinha o mesmo nome: Vornei) nos recebeu muito bem. Ofereceu a garagem para montar a barraca, nos trouxe pão com queijo, mortadela e ainda disse que seria cortesia da casa. Depois do banho e de barriga cheia dormimos feito criancinhas.

Barraca montada na garagem

Se demos o luxo de acordar mais tarde e sair só às 08:00 do último dia. Diga-se de passagem que amanheceu chovendo e ventando, mas o vento agora era norte e empurrava na direção do destino. Como o Sr. Pachuca (apelido do proprietário) havia dito que acordaria tarde e poderíamos sair antes de ele acordar, seguimos. O Sr. até se ofereceu para buscar-nos no final da travessia, ajuda que dispensamos com cortesia.

Na praia novamente, cruzamos muitas pessoas fazendo corrida/caminhada matinal. Em uma das ruelas que dava na praia paramos para visitar a estátua de Iemanjá colocada na pracinha. Desse ponto dois cachorros, muito brincalhões, nos acompanharam. Foram 15 km tranquilos. Com muitos passos de água, alguns fundos, inclusive. Como não bastasse de coisas estranhas, novamente algo aconteceu. Eram umas 10:00 quando passou uma motoniveladora (patrola) por nós; entendi o porque de areia ser tão plana naquele trecho. O maquinista ainda ofereceu carona dispensada numa boa.

Já a poucos metros da Barra do Chui, fomos recebidos por um bombeiro, todo empolgado que nos revelou estar pronto para fazer a travessia nos próximos dias. Lentamente se aproximamos dos blocos de concreto que marcam a divisa de países, vigiados pelo último farol da travessia, o Farol Chuí. Esses últimos passos foram lentos angustiantes; sabíamos que apesar de cansativa aquela experiência fantástica ia ficando para trás.

Depois de um descanso merecido cruzamos a última duna em direção à vila prontos para devorar um prato de comida salgada e iniciar as 30 horas de retorno.

Tirando a última foto da travessia nos Molhes da Barra do Chui

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